sexta-feira, 2 de maio de 2008

Michel de Montaigne - Apologie de Raimond Sebond - a segunda objeção

[Legendas: caracteres em branco: texto-base de 1580; caracteres em azul: acréscimos de 1580-1588; caracteres em vermelho: acréscimos manuscritos do exemplar de Bordeaux]

Mas eu me vou, sem mesmo percebê-lo, avançando já na segunda objeção, a qual me propus responder por Sebond: alguns dizem que seus argumentos são fracos e incapazes de demonstrar o que ele gostaria, e se vangloriam de facilmente os abalar. Falta atacar esses adversários um pouco mais rudemente, pois eles são mais perigosos e mais pérfidos que os primeiros.

Interpretamos naturalmente o que dizem os outros em função de nossas próprias opiniões, e para um ateu, todos os escritos têm qualquer coisa a ver com o ateísmo, pois ele infecta com seu próprio veneno a matéria inocente. Essas gentes possuem uma opinião formada que lhes faz achar insossos os argumentos de Sebond. De resto, parece que lhes damos a faca e o queijo, e toda a liberdade de combater nossa religião por armas puramente humanas, ao passo que eles não ousariam atacá-la em sua plena nobreza de autoridade e de soberania.O meio que utilizo para combater este frenesi, aquele que me parece o mais apropriado, é o de amassar e calcar aos pés o orgulho e a arrogância humanos. Falta fazer sentir a essas gentes a inanidade, a vaidade e a nulidade do homem, arrancar-lhes das mãos as fracas armas da razão, fazê-los curvar a cabeça e morder o pó sob o peso da autoridade e do respeito da majestade divina. Pois é a ela, e a ela somente que pertencem o conhecimento e a sabedoria: somente ela pode avaliar qualquer coisa de si mesma, e a estima que temos de nós, nós a dissimulamos.

Ou gar ea phronein ho Theos mega allon ae heaouton. [Heródoto, VII, X]
(Pois Deus não permite que outro que não ele sinta orgulho.)

Cuidemos de abater esta presunção, primeiro fundamento da tirania do espírito maligno: Deus superbis resistit; humilibus autem dat gratiam. [São Pedro, Epístolas, I, V, 5] (Deus resiste aos orgulhosos e concede sua graça aos humildes.) A inteligência está em todos os Deuses, diz Platão, e em pouquíssimos homens.

Ora, é entretanto de muito consolo ao homem cristão ver nossas ferramentas mortais e caducas tão propriamente combinadas à nossa fé santa e divina que, ainda que sejam empregadas em assuntos mortais e caducos por natureza, nisto elas não se mostrem mais justamente apropriadas nem com mais força. Vejamos então se o homem tem em seu poder outras razões mais fortes que as de Sebond, e até mesmo se chega a alguma certeza pelo argumento e pelo discurso.