sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Os métodos céticos

Isabel Pires


Os estudiosos do ceticismo filosófico reconhecem Pirro de Élida (360-270 a. C.) como seu fundador, ou seja, aquele que primeiramente sistematizou as bases do pensamento cético, criando um método próprio. Após a morte de Pirro, o método cético foi apropriado por vários pensadores antigos, de diferentes maneiras e com propósitos variados, como os dialéticos Enesidemo e Agripa, os acadêmicos Arcesilau e Carnéades, e Sexto Empírico, que compilou o pensamento cético antigo e utilizou a “bateria cética” como arma de combate ao pensamento dogmático. Aqui, se propõe uma visão geral da forma como cada um destes pensadores apresenta o ceticismo.

O pirronismo

Pirro, que também foi sacerdote de Élis, pautava o seu ceticismo por uma conduta de vida prática, baseada nos costumes e nas tradições, que tinha por objetivo alcançar a “tranquilidade intelectual” diante das divergências de opiniões. O método criado por Pirro visava obter essa tranquilidade intelectual, que para ele equivalia à “felicidade” buscada pela Ética. O pirronismo fundamenta-se na ideia de que “uma coisa não é mais que outra”, e assim não há como saber, sem provas irrefutáveis e sem uma busca meticulosa, onde está a Verdade. Assim, todas as coisas se equivalem, visto que não podem ser discerníveis nem pelos sentidos nem pela razão, já que ambos são falhos e limitados; sendo os sentidos e a razão não confiáveis, o melhor é abster-se de emitir opinião; a recusa em se pronunciar conduz ao estado de imperturbabilidade, o qual leva à indiferença. O método pirrônico se resume nos seguintes passos: 1) zétesis (investigação); 2) diafonia (conflito de opiniões); 3) isostenia (equipolência de teorias); 4) époké (suspensão do juízo); 5) afasia (ausência de fala); 6) ataraxia (tranquilidade); 7) adiaforia (indiferença) (in: BERNARDO, 2000, p. 135-6).
Pirro não deixou obras escritas – à exceção de um único poema dedicado a Alexandre, o Grande, a quem acompanhou em expedições de conquista pela Ásia –, mas suas doutrinas tornaram-se conhecidas graças a seu discípulo Timon de Filionte, que o teria retratado, em versos satíricos, como exemplo vivo do modo de vida cético, e, no século III, por Diógenes Laércio e Sexto Empírico, que compilaram o seu pensamento.

O ceticismo acadêmico

Sob a liderança de Arcesilau (315-240 a. C.) e depois, com Carneades (214-129 a. C.), a Academia, herdeira do pensamento platônico, passa a viver uma nova fase, conhecida como Nova Academia, em que os neo-acadêmicos rejeitam o dogmatismo rígido dos platônicos, pois consideram que não apenas “ainda não se tinha descoberto a verdade, como também era impossível se chegar a ela” (VERDAN, 1998, p. 23). Segundo Diógenes Laertius (2008, p. 118), Arcesilau "foi o primeiro a suspender o juízo por causa da contradição de argumentos opostos. Foi também o primeiro a defender ambos os lados de uma questão, e o primeiro a modificar o sistema deixado por Platão e a torná-lo mais adequado à controvérsia mediante perguntas e respostas". Carneades combateu com afinco os estóicos, particularmente Crisipo. Deixou apenas cartas escritas, sendo sua obra compilada por seus discípulos.



Adotando os princípios céticos e utilizando a dialética como método de obtenção da époké, a suspensão do juízo cética, os neo-acadêmicos também defendem a proposição de dois critérios, com o objetivo de orientar, mesmo provisoriamente, as ações cotidianas: a razoabilidade, que invoca a favor de uma ação um conjunto mínimo de razões coerentes, e a probabilidade, segundo a qual uma coisa poderia ser mais provável que outra (in: BERNARDO, 2000, p. 136).

O ceticismo dialético

Com Enesidemo e Agripa, que viveram por volta de 80 a. C. e 130 da era cristã, o ceticismo é marcado por um retorno radical à époké pirrônica, que havia sido deixada em segundo plano pelo probabilismo dos neo-acadêmicos. Enesidemo e Agripa elaboraram métodos próprios, acrescentando assim sua visão particular ao método original de Pirro. Enesidemo elaborou os Dez Modos e os Oito Modos do ceticismo, enquanto Agripa acrescentou aos Modos de Enesidemo os seus Cinco Tropos. Os Dez Modos de Enesidemo constituem um questionamento sistemático e radical do conhecimento filosófico. Por sua vez, os Oito Modos são dirigidos especificamente contra os filósofos dogmáticos e tencionam combater a ideia de causalidade, expondo os seus impasses.
Os Cinco Tropos de Agripa são considerados pelos estudiosos do ceticismo como uma das principais armas de combate ao dogmatismo, pois, ao mesmo tempo em que resumem os pontos mais importantes do ceticismo, evidenciando a fragilidade do conhecimento empírico, revelam por outro lado “a incapacidade da própria razão em estabelecer qualquer verdade” (VERDAN, 1998, p. 34).
Apresentamos a seguir, de forma resumida, esses “modos do ceticismo”, conforme compilados por Sexto Empírico (1993):

Os Dez Modos de Enesidemo

Modo 1:
Diferenças entre os animais. As distinções entre os animais geram diferentes formas de percepção do mundo exterior, não se podendo dizer que as impressões sensíveis dos seres humanos, em comparação com as dos outros animais, sejam capazes de desvendar a real natureza de um objeto.
Modo 2: Diferenças entre os seres humanos. Se, em razão das diferenças individuais, as coisas afetam os homens de modos diferentes em diferentes momentos, não há porque se crer que uma dada percepção revele melhor que outra a real natureza das coisas.
Modo 3: Diversidade dos sentidos num único indivíduo. A percepção, num mesmo indivíduo, está sujeita a variações que afetam a apreensão dos fenômenos. Além disto, cada órgão dos sentidos apreende os fenômenos de forma diferente, não se podendo saber qual deles teria a capacidade de revelar as verdadeiras propriedades dos objetos.
Modo 4: Relatividade das circunstâncias. A percepção é alterada pelas circunstâncias que afetam o sujeito, tais como saúde, doença, sono, vigília, idade, movimento, repouso, lucidez, embriaguez, amor, ódio.
Modo 5: Circunstâncias do objeto. Este modo seria o equivalente, para os objetos, das circunstâncias que afetam os sujeitos. Assim, de acordo com posições, intervalos e lugares, os mesmos objetos podem ser percebidos de várias maneiras pelos que os observam.
Modo 6: Combinações. Os objetos não afetariam os sentidos humanos por si mesmos, mas sempre em combinação com outros fatores.
Modo 7: Quantidades. A quantidade e a composição dos objetos influenciam a percepção sobre eles, tornando impossível que a natureza objetiva do mundo seja revelada por eles.
Modo 8: Relatividade. O conhecimento é relativo tanto ao sujeito como às próprias coisas (ou circunstâncias) que são percebidas.
Modo 9: Frequência e raridade. Os observadores estabelecem graus diferentes de importância aos fenômenos, segundo a ocorrência deles. Assim, um terremoto impressionaria mais pela sua pouca ocorrência, do que pelos danos realmente causados. Em contrapartida, o fenômeno das secas e/ou geadas, em alguns lugares, impressionam menos, embora também causem muitos danos.
Modo 10: Costumes. Os costumes, as leis e a moral são variáveis de um povo para outro, o que leva à necessidade de se considerar uma equipolência entre eles. Assim, devido à multiplicidade cultural, deve haver uma relatividade cultural das regras de conduta dos indivíduos e grupos, leis, hábitos, lendas, etc. que formam o patrimônio cultural de um povo.

Os Oito Modos de Enesidemo

Modo 1: Princípio da não-confirmação. Uma vez que a etiologia em geral lida com coisas não-evidentes, ela não pode ser confirmada por evidências incontroversas derivadas do que aparece.
Modo 2: Princípio da pluralidade causal ou da monocausalidade arbitrária. Com frequência, quando há amplo espaço para atribuir ao objeto sob investigação uma variedade de causas, alguns dogmáticos o fazem em apenas um sentido.
Modo 3: Princípio da incompatibilidade formal. Para eventos ordenados, os dogmáticos atribuem causas que não exibem ordem alguma.
Modo 4: Princípio da falácia analógica. Ao perceberem o modo pelo qual o que aparece ocorre, os dogmáticos afirmam que também podem apreender de que modo o que não aparece ocorre. Embora o que não aparece possa se realizar de modo similar ao que aparece, é possível que ele assim não se realize, mas sim de forma própria e peculiar.
Modo 5: Princípio da idiossincrasia. Os dogmáticos em geral atribuem causas de acordo com suas hipóteses particulares, e não de acordo com métodos comumente pactuados.
Modo 6: Princípio da seletividade. Frequentemente os dogmáticos admitem apenas os fatos que podem ser explicados por suas próprias teorias, e descartam fatos que com elas colidam, embora possuam igual probabilidade.
Modo 7: Princípio da inconsistência. Com frequência os dogmáticos atribuem causas que conflitam não apenas com o que aparece, mas com suas próprias hipóteses.
Modo 8: Princípio da incerteza hiperbólica. Quando há idêntica dúvida a respeito de coisas aparentes assemelhadas e coisas sob investigação, eles baseiam sua doutrina a respeito de coisas duvidosas em coisas igualmente duvidosas.

Os Cinco Tropos de Agripa

Tropo 1: Modo da discordância. Trata do conflito interminável (diaphonía) que ocorre tanto entre filósofos como entre os homens comuns, a respeito de qualquer assunto.
Tropo 2: Regressão ao infinito. Uma evidência oferecida como prova de uma afirmação remete à necessidade de ser ela mesma provada, e assim por diante, até o infinito.
Tropo 3: Relatividade. Nada é apreendido em si mesmo e por si mesmo, mas sempre em relação a circunstâncias que afetam tanto os sujeitos como os objetos de conhecimento. O que resulta que nada pode ser conhecido em absoluto.
Tropo 4: Hipóteses. Na tentativa de escapar da regressão ao infinito, os dogmáticos tentam colocar no início da argumentação algo que não demande prova, ou seja, uma hipótese. No entanto, os céticos podem recusar este princípio, uma vez que uma hipótese pode ser contraditada por qualquer outra proposição, visto não haver provas para ela.
Tropo 5: Círculo vicioso ou reciprocidade. O dialelo ou círculo vicioso surge quando a prova que confirmaria uma proposição se deriva da própria proposição. Isto é, quando o dogmático tenta justificar sua afirmação pelas consequências, que são, porém, justificadas pela própria afirmação.

O ceticismo de Sexto Empírico

Sexto Empírico, médico grego adepto da corrente empirista,1 sistematiza, por volta de 220 a 230 da era cristã, o que se conhece do ceticismo filosófico até então. Suas obras Hipotiposis pirronicas e Adversus mathematicus apresentam o método pirrônico e os Modos e Tropos de Enesidemo e de Agripa, sendo através delas que esses métodos chegaram até os dias atuais. Para Sexto, os sistemas filosóficos são de três tipos principais: dogmático, acadêmico e cético. Os dogmáticos, como Aristóteles, Epicuro, os estóicos e outros, “disseram haver encontrado a verdade”; os acadêmicos, seguidores de Clitômaco e Carnéades, “declararam que isto não era possível”, enquanto os céticos “continuam investigando” (EMPIRICO, 1993, p. 51).
Sexto também coloca em xeque as três disciplinas tradicionais da filosofia – a Lógica, a Metafísica e a Ética. O ataque de Sexto Empírico à Lógica consiste num questionamento do “critério de verdade”, que, à luz do ceticismo, surge como parcial e subjetivo. Sexto argumenta que, para o estabelecimento de uma regra absoluta capaz de distinguir o verdadeiro do falso, é necessário se definir antes um critério prévio. Mas como estabelecer qualquer critério prévio, sem cair num círculo vicioso? No exame da Metafísica, Sexto Empírico se vale do método dialético, apresentando de modo imparcial a tese e sua antítese. Assim, após informar sobre a discordância dos filósofos acerca da questão da divindade, expõe Sexto primeiramente os argumentos a favor da existência divina, para, logo em seguida, apresentar a argumentação dos ateus, sem se decidir por nenhum dos lados. Para ele, simplesmente, “considerando a igual força dos argumentos, pode ser que os deuses existam ou não” (in VERDAN, op. cit., p. 48). A crítica de Sexto à Ética é dirigida à dupla finalidade desta: distinguir racionalmente o Bem do Mal e, a partir disso, ensinar aos homens o caminho da felicidade. Sexto Empírico ressalta o caráter relativo dos conceitos de Bem e de Mal, visto que tanto filósofos como homens comuns discordam sobre o que é bom e o que é mal. Os céticos argumentam que, mesmo que tal discernimento fosse possível, ele ainda não seria capaz de assegurar a felicidade, pois o homem em busca dela sofreria constantes perturbações, na tentativa de separar as coisas boas das más. Para solucionar o impasse, a recomendação cética é a suspensão do juízo, utilizada como método diante dos dois lados opostos que se apresentam – o Bem e o Mal –, e a adesão à moral e aos costumes vigentes. Com isso, os céticos asseguram a obtenção da ataraxia, a serenidade.
A fim de rebater as críticas feitas aos céticos de que a sua doutrina possui um objetivo – a busca da “preciosa ataraxia”, a serenidade de espírito, contradizendo deste modo os princípios nos quais se fundamenta, Sexto Empírico recorre a uma imagem, conhecida entre os estudiosos como o “apólogo de Apeles”:

Com o cético ocorre o que se conta do pintor Apeles. Dizem, com efeito, que, pintando um cavalo e querendo reproduzir na pintura a espuma do animal, tinha tão pouco êxito que, desistindo, atirou contra o quadro a esponja que usava para limpar os pincéis. Esta, ao tocar na pintura, plasmou nela a forma da espuma do cavalo. De idêntico modo, também os céticos esperam recobrar a serenidade de espírito avaliando a disparidade dos fenômenos e das considerações teóricas, mas, não sendo capazes de tal empreitada, suspendem seus juízos e, ao assim procederem, alcançam como que por acaso a serenidade de espírito, da mesma forma como a sombra acompanha o corpo. (EMPIRICO, 1993, p. 61-2)

Para os céticos, a ataraxia é, sempre, uma consequência da prática do ceticismo, e não um fim em si, e deve ser conseguida pela não consideração de questões indecidíveis, que levam ao conflito de opiniões e à perturbação do espírito. O ceticismo de Sexto Empírico possui um caráter marcadamente terapêutico, funcionando como remédio contra o “mal do dogmatismo” e das “perturbações filosóficas”.
O “grande historiador do ceticismo antigo”, como Jean-Paul Dumont (s/d) denomina Sexto Empírico, avulta na história do ceticismo grego, mas é com ele também que se encerra um ciclo. Após sua morte, o ceticismo cai num período de nebulosidade que dura, aproximadamente, dez séculos, ressurgindo apenas com os nominalistas do fim do período medieval, dos quais se destaca o frade franciscano inglês Guilherme de Occam (1270 a 1346, provavelmente). Com a publicação, em latim, das obras de Sexto Empírico em 1562 e 1569, no contexto renascentista francês, o ceticismo novamente viria à tona, encontrando, em Montaigne, notadamente no ensaio A apologia de Raymond Sebond, a sua expressão mais acabada.

Bibliografia

BERNARDO, Gustavo. “O nominalismo medieval na base da fenomenologia moderna”. In: MALEVAL, Maria do Amparo T. (org.). Atualizações da Idade Média. Rio de Janeiro: Ágora da Ilha, 2000, p. 133-166.

DUMONT, Jean-Paul. Ceticismo. Trad. Jaimir Conte. Disponível em http://planeta.terra.com.br/arte/dubitoergosum. Acesso em maio 2008.

EMPIRICO, Sexto. Esbozos pirrónicos. Introducción, traducción y notas de Antonio G. Cao e Teresa M. Diego. Madrid: Editorial Gredos, 1993.

VERDAN, André. O ceticismo filosófico. Trad. Jaimir Conte. Florianópolis: UFSC, 1998.

NOTA








1Teoria médica que, a partir do século III, se opunha às concepções médicas tradicionais, que procuravam as “causas profundas” das doenças nos “quatro humores fundamentais” e em “fluidos vitais”. Ao contrário dos “doutrinadores”, que estabeleciam prováveis causas para as doenças, com hipóteses por vezes absurdas, os médicos empíricos consideravam este esforço vão, e defendiam que, o melhor a fazer, era se ater aos sinais aparentes das moléstias, adaptando a estes sinais uma terapêutica possível de curá-los.