sexta-feira, 7 de março de 2008

Michel de Montaigne - Apologie de Raimond Sebond - primeira objeção

(Livro II – capítulo XII d´Os Ensaios)

[Legendas: caracteres em branco: texto-base de 1580; caracteres em azul: acréscimos de 1580-1588; caracteres em vermelho: acréscimos manuscritos do exemplar de Bordeaux]

Na verdade a ciência é um domínio do conhecimento muito grande e muito útil e mostrar desprezo por ela é absurdo. Mas, no entanto, eu não lhe atribuo um valor tão extremo que alguns lhe dão, como Herilo, o filósofo, que colocava nela o bem soberano, e considerava-a capaz de tornar-nos felizes e sábios. Não creio nisso, nem mais no que afirmam outros, por exemplo, que o conhecimento é a mãe de toda virtude, e que todo vício é produzido pela ignorância. Se for verdade, isso merece uma longa discussão.

Nossa casa há muito tempo está aberta à gente de saber, e é bem conhecida dela. Meu pai, que a dirigiu cerca de cinqüenta anos e mais, repleto deste novo ardor com que o rei Francisco I venera as letras, buscou com cuidado e fartamente a companhia dos sábios; ele os tem em conta de santos ou de pessoas que possuem inspiração de sabedoria divina, acatando seus julgamentos e suas reflexões como de oráculos, e com tanto mais reverência e fervor religioso, quanto menos podia julgar, pois não possuía nenhum conhecimento das letras, não mais do que seus antepassados. Quanto a mim, se os aprecio, não lhes tenho adoração!

Pierre Bunel, bastante reputado, entre outros, por seu saber à época, tendo estado em Montaigne, onde foi acolhido por meu pai por alguns dias juntamente com outros companheiros, ao partir deixou-lhe um livro intitulado “Teologia natural, ou o livro das criaturas, do doutor Raymond Sebond”. E como as línguas espanhola e italiana eram familiares a meu pai, e estando esse livro escrito numa espécie de espanhol recheado de terminações latinas, Bunel esperava que, com um pouco de vontade e ajuda, meu pai pudesse aproveitá-lo, ele o recomendou como um livro bastante útil e apropriado às circunstâncias: quando o efeito das novidades de Lutero começaram a se difundir, e a abalar em muitos lugares nossa fé tradicional. Neste ponto ele mostrou estar certo, pois seu raciocínio levou-o a pensar que uma paixão apenas iniciada poderia facilmente degenerar num execrável ateísmo.

Com efeito, as gentes do povo não têm a capacidade de julgar as coisas por si mesmo e se deixam levar pelo acaso e pelas aparências. Por isso, desde que lhe deram a ousadia de menosprezar e criticar as opiniões que até então consideravam com grande deferência, como a questão de sua salvação, desde que colocaram em dúvida e questionaram certos artigos de sua fé, eis que se meteram a suspeitar de tudo, pois não tinham por elas outra autoridade nem fundamento que justo aqueles que foram abalados. Eis que logo sacodem como um jugo tirânico tudo o que lhes vem da autoridade das leis ou do respeito da tradição,

Nam cupide concultatur nimis ante metutum; [Lucrécio, V, 1139]
(Pois pisoteamos com paixão o que outrora temíamos;)

e começam então a não admitir mais nada que não tenham examinado antes e aceitado explicitamente.

Ora, achando-se há alguns dias de sua morte, meu pai, tendo encontrado por acaso esse livro debaixo de uma pilha de outros papéis abandonados, pediu-me que o traduzisse para o francês. É fácil traduzir autores como aqueles em que praticamente não há mais que o conteúdo a verter. Mas quando se trata dos que valorizam a qualidade e a elegância da linguagem, e apresentá-los bem, é uma temeridade, notadamente se for traduzi-los para um idioma mais fraco. Era uma ocupação nova e singular para mim. Mas como, por felicidade, eu me encontrava disponível naquele momento, e nem poderia recusar coisa alguma que me pedisse o melhor pai que jamais houve, desincumbi-me desta tarefa como pude. Sentiu ele tanto prazer, que ordenou que se fizesse imprimi-la, o que foi feito após sua morte [com a negligência que pode ser ver, conforme o grande número de erros que o impressor deixou, tendo assumido sozinho a responsabilidade pelo trabalho].

Achei belas as idéias desse autor, bem feita a organização de sua obra, e seu propósito pleno de piedade. Uma vez que muita gente se compraz em lê-lo, notadamente as mulheres, a quem devemos consideração, freqüentemente vejo-me compelido a ajudá-las a desculpar o livro de duas principais críticas que lhe são feitas. Seu objetivo é ousado e corajoso, pois ele pretende, com argumentos humanos e naturais, estabelecer e demonstrar, contra os ateus, todos os artigos da religião cristã. E assevero que nisso ele se saiu tão firme e bem sucedido que não penso que seja possível se fazer melhor nesse domínio, nem mesmo que alguém o tenha igualado. Essa obra me pareceu muito rica e muito bela para um autor cujo nome é pouco conhecido, e do qual só sabemos que era espanhol e foi médico em Toulouse há cerca de duzentos anos. Um dia, solicitei o parecer de Adrien Turnèbe, que sabe tudo, acerca daquele livro. Ele me respondeu que, em sua opinião, tratava-se de uma espécie de quintessência tirada de São Tomás de Aquino, pois somente um espírito como aquele, pleno de uma imensa erudição e de uma admirável sutileza, seria capaz de conceber tais idéias.
De qualquer modo, quem quer que seja seu autor e inventor (e não seria justo retirar este título a Sebond sem outros motivos), tratava-se de um homem de grande talento e de inúmeras qualidades.

A primeira crítica que se faz à sua obra é que a religião cristã não repousa senão sobre a fé e sobre uma inspiração particular da graça divina, e que eles [os cristãos] estão errados, ao pretender apoiar-se em argumentos de ordem humana. E como essa objeção parece revestir-se de um zelo piedoso, é-nos preciso abordá-la com tanto mais delicadeza e principalmente respeito para com aqueles que a defendem. Tal papel ficaria melhor a um homem versado em teologia, do que a mim, que nada sei dessas coisas. Mas eis que pensei, no entanto: essa verdade, sobre a qual a bondade de Deus houve por bem nos esclarecer, é algo tão divino e tão elevado, e excede de tal modo a inteligência humana, que é necessário que nos preste uma vez mais seu auxílio, por um extraordinário favor e privilégio, pelo qual possamos concebê-la e acolhê-la em nós; e não creio que os meios puramente humanos sejam capazes disso de modo algum.

Se assim fosse, muitos espíritos especiais e excelentes, e bem dotados de qualidades naturais, que os séculos passados conheceram, não teriam deixado de, por suas próprias reflexões, chegar a esse conhecimento. Somente a fé pode nos permitir abraçar verdadeira e fortemente os profundos mistérios de nossa religião. Mas isso não quer dizer que não seja uma obra muito bela e muito louvável aquela que utiliza para o serviço de nossa fé as faculdades naturais e humanas que Deus nos deu. E não resta dúvida, aliás, que este é um uso honroso que podemos fazer, e que não há ocupação nem propósito mais digno de um cristão que o de procurar, mediante seus estudos e suas reflexões, embelezar, estender e ampliar a verdade de sua crença. Nem nos contentamos de servir a Deus com nosso espírito e nossa alma; nós lhe devemos ainda, e lhe rendemos, uma veneração corporal: empregamos nossos próprios membros, nossos movimentos e as coisas externas a venerá-lo. Resta fazer a mesma coisa com a razão, e utilizar aquilo que temos em nós para acompanhar nossa fé, mas não obstante com esta ressalva: não é necessário pensar que ela depende de nós, nem que nossos esforços e nossos argumentos pudessem atender jamais a um conhecimento tão sobrenatural e divino.

Se ela [a fé] não penetra em nós de forma extraordinária, e se penetra não somente pelos argumentos mas também por meios simplesmente humanos, ela não pode estar em nós em toda sua dignidade e todo seu esplendor. E, no entanto, creio que não possamos desfrutá-la senão por esta via. Se nos ligássemos a Deus por intermédio de uma fé viva, se nos ligássemos a Deus por ele, e não por nós, se tivéssemos uma base e um fundamento divinos, as vicissitudes humanas não teriam o poder de nos abalar, como o fazem: nossa fortaleza não estaria predisposta a se render a um ataque tão fraco. O amor à novidade, a coerção dos príncipes, os sucessos de um partido, a mudança temerária e fortuita de nossas opiniões, nenhuma dessas coisas teria a força de sacudir e alterar nossa crença. Nem a deixaríamos tremer ao primeiro argumento, nem à persuasão, nem diante de toda a retórica que jamais existiu: suportaríamos essas tormentas com uma firmeza inflexível e impassível:

Illisos fluctus rupes ut vasta refundit, Et varias circum latrantes dissipat undas Mole sua.
[Como um grande rochedo repele as torrentes que o atingem, e com sua massa dispersa as ondas que rugem ao seu redor (versos anônimos, imitados da Eneida, de Virgílio, em louvor a Ronsard)].

Se o raio da divindade nos tocasse um pouco, isso se manifestaria por toda parte: não somente nossas palavras, mas nossos próprios atos, portariam sua luz e seu brilho. Tudo o que viesse de nós seria iluminado por essa nobre claridade. Deveríamos nos envergonhar de ver que, nas seitas humanas, jamais houve um único adepto que, por mais difícil e estranha que fosse sua doutrina, não tenha conformado a ela sua conduta e sua vida, ao passo que, em uma instituição tão divina e celeste quanto a sua, os cristãos não são distinguidos mais do que por palavras.

Quereis uma prova? Compareis nossos costumes aos de um muçulmano, aos de um pagão: permanecerão sempre inferiores, ao passo que, em vista da superioridade de nossa religião, deveríamos brilhar em excelência, a uma distância extrema e incomparável... E deveria ser dito: “São eles tão justos, tão caridosos, tão bons? Então são cristãos!” As aparências exteriores são comuns a todas as religiões: esperança, confiança, eventos, cerimônias, penitências, martírios. A marca particular de nossa verdade deveria ser a nossa virtude, ao mesmo tempo em que ela é a marca da mais celeste e da mais difícil, e da mais nobre demonstração da verdade. E bem teve razão, nosso bom São Luís, quando esse rei tártaro que se tornou cristão desejou vir a Lyon beijar os pés do Papa, e ver com seus próprios olhos a santidade que pensava encontrar em nossos costumes, ele bem teve razão de o dissuadir encarecidamente, com receio de que a vista de nosso modo de vida dissoluto o desviasse de uma tão santa crença! Mas é verdade que, depois disso, coisa bem diversa aconteceu a este outro que, tendo ido a Roma pelas mesmas razões, e vendo a vida dissoluta dos prelados e do povo da época, firmou-se ainda mais em nossa religião, considerando qual deveria ser a sua força e sua santidade, por manter sua dignidade e seu esplendor a milhas de tanta corrupção e de mãos tão viciosas.

Se tivéssemos uma só gota de fé, removeríamos as montanhas, diz a Santa Bíblia. Nossas ações, se fossem guiadas e acompanhadas pela divindade, não seriam simplesmente humanas, elas teriam qualquer coisa de miraculosa, assim como nossa própria crença.

Brevis est institutio vitae honestae beataeque, si credas. [Quintiliano, XII, 2]
[Crer é um meio rápido de modelar sua vida à virtude e à felicidade.]

Uns fazem crer a todo mundo que acreditam naquilo em que não crêem. Outros, mais numerosos, fazem crer a si mesmos, incapazes que são de saber verdadeiramente o que é crer.

Achamos estranho que, nas guerras que neste momento oprimem nosso país, vejamos os acontecimentos flutuar e evoluir de uma maneira comum e ordinária: é que não lhes fornecemos coisa alguma de nós. A justiça, que está em um de dois partidos, não é como um enfeite ou um cobertor; ela é muito citada, mas não é nem recebida nem alojada, nem esposada; ela está como que em boca de advogado e não no coração e nos sentimentos do defensor. Deus deve seus socorros extraordinários à fé e à religião, e não a nossas paixões. Os homens são líderes e se servem da religião, quando deveria ser ao contrário.

Observai se não é por nossas próprias mãos que dirigimos a religião, tirando como de uma cera tantas formas diferentes a partir de uma regra tão reta e tão firme... Quando isso foi melhor visto que na França neste momento? Os que a assaltam pela esquerda, os que a assaltam pela direita, os que a invocam em negro, os que a invocam em branco – todos a utilizam da mesma maneira para seus projetos ambiciosos e brutais, e se comportam da mesma forma em matéria de desregramento e de injustiça, que seguramente fazem duvidar da diversidade de opiniões que pretendem ter sobre esta coisa da qual depende a conduta e as regras de nossa vida. Será possível ver sair da mesma escola e do mesmo ensinamento costumes mais semelhantes, condutas mais idênticas?

Vês com que horrível impudência nos divertimos com as razões divinas, e como as rejeitamos e as retomamos sem nenhum escrúpulo religioso, segundo o destino nos mude de lugar nas tempestades que causam toda desordem!
Cosiderai esta questão tão importante: será permitido ao súdito se rebelar e se armar contra seu príncipe para defender a religião? Lembrai-vos de que responderam a ela afirmativamente, no ano passado, e de que partido esta afirmação constituiu o credo... Lembrai-vos então de que outro partido a afirmação contrária também constituiu o credo... E agora: entendes de onde vêm as vozes que proclamam um e outro [credo]? E se as armas fizerem menos barulho por esta causa que por aquela? E levamos à fogueira as pessoas que dizem que falta submeter à verdade o jugo de nossa necessidade. Mas a França faz bem pior que somente o dizê-lo!


Aceitemos reconhecer a verdade: aquele que separasse, mesmo no exército regular, os que marcham apenas por zelo da fé religiosa, e os que não se preocupam senão com a proteção das leis do seu país ou do serviço do seu príncipe, não encontraria com o que constituir uma companhia de soldados completa. Qual o motivo de se encontrar tão poucos que ainda conservam a mesma vontade e a mesma marcha em nossas guerras civis, e de os vermos, ao contrário, andar ora ao passo, ora à rédea solta? Qual o motivo de vermos os mesmos homens prejudicar nossas vidas ora por sua violência e sua intransigência, ora por sua indiferença, sua moleza, sua inércia? Não é por que eles sejam impelidos por considerações pessoais e ocasionais, e em função de cuja diversidade eles agem?

Parece-me evidente que não nos unimos de bom grado à devoção com que se embelezam nossas paixões. Não há hostilidade tão extrema quanto a dos cristãos. Nossa dedicação é maravilhosa quando vai de encontro ao nosso pendor natural para o ódio, a crueldade, a ambição, a cupidez, a denúncia, a rebelião. Mas, inversamente, para os lados da bondade, da benevolência, da moderação, se por milagre algum temperamento excepcional não nos impele, não iremos nem a pé nem correndo.
Nossa religião tem como fim extirpar os vícios, e ela os dissimula, nutre-os, excita-os.

Não se deve enganar a Deus – como se diz. Se cremos nele, não digo por fé, mas pela crença comum, e se mesmo (o digo para nosso grande embaraço) acreditamos nele e o conhecemos apenas por um dia, como um de nossos companheiros, o amaremos sobre todas as coisas, pela infinita bondade e infinita beleza que brilham nele. E ao menos ele caminharia então, em nossa afeição, no mesmo passo que nossas riquezas, nossos prazeres, nossa glória e nossos amigos.

Mesmo o melhor dentre nós não tem receio de ultrajá-lo, ao passo que receia insultar seu vizinho, seu parente, seu mestre. Tendo de um lado o objeto de um de nossos prazeres viciosos, e do outro a consciência e a convicção de uma glória imortal, será alguém de uma inteligência assaz simples para desejar colocar ambos na mesma balança? E no entanto renunciamos com freqüência à segunda, por puro desdém; pois o que é que nos impele a blasfemar, senão o próprio gosto pela ofensa?

Como o iniciassem nos mistérios de Orfeu, e o sacerdote lhe dissesse que aquele que se devotasse a essa religião conhecesse após a morte uma felicidade eterna e perfeita, o filósofo Antístenes disse-lhe: “se crês nisso, porque não morres tu mesmo”?

Com sua maneira brusca, e fora de propósito, Diógenes retruca ao sacerdote, que procurou tanto convencê-lo a juntar-se à sua ordem, para ter acesso aos bens do outro mundo: “Tu não queres entretanto me fazer crer que Agesilau e Epaminondas, que são vistos como grandes homens, serão miseráveis, ao passo que tu, que não passas de um cavalo, e que não fazes coisa que valha, serás bem-aventurado por que és sacerdote?”.

Se recebêssemos essas grandes promessas da beatitude eterna com a mesma autoridade que a um argumento filosófico, não teríamos aversão à morte nem um horror tão grande que aquele que experimentamos.

Non jam se moriens dissolvi conquereretur; Sed magis ire foras, vestémque relinquere, ut anguis, Gauderet, praelonga senex aut cornua cervus. [Lucrécio, III, 612]
[Longe de lamentar sua própria dissolução, o moribundo se regozijaria de partir e deixar seus restos, como a serpente larga sua pele, e o cervo muito velho abandona seus longos chifres.]


Quero decompor-me, diríamos, e estar com Jesus Cristo. A força do discurso de Platão sobre a imortalidade da alma não impeliu alguns de seus discípulos à morte, para gozar mais prontamente das esperanças que lhes davam?

Tudo isto é o sinal evidente de que não acolhemos esta religião senão à nossa maneira, e por nossos próprios meios, e que os outros tampouco a recebem de modo diferente. Encontramo-nos em um país onde ela já se achava em uso, levamos em conta sua antigüidade ou o prestígio daqueles que a defendem, receamos as ameaças que ela profere contra os descrentes, e corremos atrás daquilo que ela nos promete. Essas considerações devem servir à nossa crença, mas não são mais que secundárias, pois são de ordem humana. Em um outro país, de outros exemplos, de promessas parecidas e ameaças corrompidas, tudo também pode nos conduzir a uma crença contrária... Somos cristãos da mesma maneira que somos perigordinos ou alemães.

E o que disse Platão, que há poucos homens suficientemente firmes em seu ateísmo que um risco premente não possa fazê-los de novo reconhecer o poder divino, não se aplica a um verdadeiro cristão: é dever das religiões mortais e humanas que se façam receber por vias humanas. E qual pode ser a fé que a covardia e a fraqueza instilam e estabelecem em nós? Extravagante fé, que crê naquilo que crê por falta de coragem de não lhe crer! Um sentimento ruim, como a falta de firmeza ou o medo, pode produzir em nossa alma algo de razoável?

Estes homens estabelecem, diz ele [Platão], pela razão de seu julgamento, que o que se conta sobre os infernos e os sofrimentos futuros é imaginário. Mas quando a ocasião de experimentá-lo se lhes oferece, quando a velhice e as doenças os aproximam da morte, então o terror que sentem os enche de uma crença nova, tal é o grande horror que os aguarda. E porque tais idéias tornam medrosos os corações, ele recusa-se a admitir em suas Leis qualquer menção a semelhantes ameaças, qualquer idéia de que os Deuses pudessem causar ao homem algum mal, a menos que seja, como no caso de um remédio, para o seu bem. Conta-se que Bíon havia se contaminado pelo ateísmo de Teodoro, e que durante muito tempo ele zombara dos homens religiosos; mas quando a morte o surpreendeu, ele se deixou levar pela mais estúpida superstição: como se os Deuses pudessem desaparecer e aparecer em função do estado de [saúde de] Bíon!

Platão e seus exemplos nos conduzem à conclusão de que somos levados a crer em Deus pelo raciocínio ou pela coerção. O ateísmo é uma proposição em certa medida desnaturada e monstruosa, difícil de se fazer admitir ao espírito humano, por mais insolente e desregrado que este possa ser. Mas veja-se o número de homens que, pela vaidade e pelo orgulho de conceber opiniões originais e pretenderem reformar o mundo, adotaram esta postura; eles não são tão loucos nem tão fortes para ter verdadeiramente em consciência adotado esta opinião, e se vós lhes desses um bom golpe de espada sobre o peito, vós os verias unir as mãos em direção ao céu. E quando o temor ou a doença abalasse este fervor provocante e instável, eles não deixariam de se recobrar e deixar-se discretamente conduzir pelas crenças e pelos exemplos mais comuns. Um dogma verdadeiramente assimilado é uma coisa; as posições superficiais são outra coisa; nascidas da divagação de um espírito perturbado, elas flutuam imprudentemente e sem convicção na imaginação. Homens bem desafortunados e desmiolados, que se esforçam de estar ainda piores do que podem!

O erro do paganismo e a ignorância de nossa santa verdade conduzem a alma de Platão, por certo grande, mas de uma grandeza humana somente, a adotar esta falsa idéia de que as crianças e os velhos são os mais predipostos à religião, como se ela nacesse e tirasse sua força de nossa imbecilidade!

O laço que deveria ligar nosso julgamento e nossa vontade, que deveria cingir nossa alma e uni-la a nosso Criador, que deveria ser um laço que tirasse sua força e sua tessitura não de nossas considerações, de nossos raciocínios e de nossas emoções, mas de um contato divino e sobrenatural, não é mais que uma forma, que uma fisionomia, que um aspecto: a autoridade de Deus e sua graça. Ora, nosso coração e nossa alma são regidos e comandados pela fé, e é legítimo que esta utilize, para o serviço de seus propósitos, todas as nossas outras faculdades, segundo suas capacidades. Tanto que não se pode crer que não haja, em toda esta maquinaria do mundo, quaisquer marcas e impressões da mão deste grande arquiteto, e que não haja, entre todas as coisas do mundo, alguma imagem que evoque ligeiramente o artífice que as construiu e formou. Ele manifestou nessas obras sublimes o caráter de sua divindade, e se não o podemos descobrir, será tão somente pela nossa fraqueza. É o que ele próprio nos diz: suas obras invisíveis, ele nos as manifesta por suas obras visíveis.

Sebond dedicou-se à nobre tarefa de nos mostrar como não há coisa alguma no mundo que desminta seu autor. Seria anular a bondade divina se o universo não correspondesse àquilo em que cremos. O céu, a terra, os elementos, nosso corpo e nossa alma, todas as coisas conspiram para isso: basta encontrar o meio de as utilizar, e elas nos ensinarão, se formos capazes de compreender. Pois este mundo é um templo sagrado no qual o homem foi introduzido para contemplar estátuas que não foram feitas por mãos humanas, mas que o amor divino as tornou sensíveis: o sol, as estrelas, as águas, a terra nos dão uma idéia daquilo que não é inteligível. As coisas invisíveis de Deus, disse São Paulo, se manifestam pela criação do mundo, quando consideramos sua sabedoria eterna e sua divindade por meio de suas obras.

Atque adeo faciem coeli non invidet orbi Ipse Deus,
vultusque suos corpusque recludit Semper volvendo;
seque ipsum inculcat et offert,
Ut bene cognosci possit, doceatque videndo Qualis eat,
doceatque suas attendere leges. [Manílio, IV, 907]

(Deus não recusa à terra a visão do céu:
É
sua própria face e seu corpo que ele nos revela
Fazendo-o girar sem cessar acima de nossas cabeças.
Ele se doa a nós, ele se imprime em nós.
Para que possamos conhecê-lo bem, contemplar seus feitos e obedecer às suas leis.
)

Nossas explicações e nossos argumentos humanos são uma espécie de matéria bruta e estéril: é a graça de Deus que lhe dá forma, é ela que a molda e a faz valer. Do mesmo modo que as ações virtuosas de Sócrates e de Catão de Útica permancem vãs e inúteis por não terem tido como sua verdadeira finalidade, por não haver experimentado amar e obedecer ao verdadeiro criador de todas as coisas, por haver ignorado Deus – assim são nossas idéias e nossos argumentos: podiam bem ser um corpo, mas são uma massa informe, sem contornos, sem brilho, quando a fé e a graça de Deus não lhes esteja associada. E a fé que vem colorir e ilustrar os argumentos de Sebond torna-os firmes e sólidos: eles podem servir para nos orientar, serem um primeiro guia a um principiante, colocá-lo no caminho do conhecimento; eles o moldam, por assim dizer, e permitem na graça de Deus completar e aperfeiçoar depois nossa crença.

Conheço um personagem importante, bastante culto, que confessou-me haver escapado aos erros da incredulidade graças aos argumentos de Sebond. E mesmo se lhes retirassem o verniz, se lhes levassem o socorro e a confirmação da fé, e que fossem tidos por puras invenções humanas, eles se mostrariam ainda, no combate contra aqueles que caem nas espantosas e horríveis trevas da irreligião, mais sólidos e firmes que todos aqueles do mesmo gênero que se lhes opuseram. De modo que poderemos dizer aos nossos adversários:

Si melius quid habes, accerse, vel imperium fer. [Horácio, Epístola, I, 5]
Se possuis melhores argumentos, produzi-os; se não, submetei-vos.

Que suportem a força de nossas provas, ou que nos mostrem outras, e sobre qualquer outro assunto, de melhores urdiduras e estofos.

Nenhum comentário: